O drama do obsessivo: entre o "Devo" e o "Desejo"
- VinÃcius R. de Oliveira
- 24 de jun. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: 23 de jul. de 2025
Por que algumas pessoas ficam presas em rituais, pensamentos repetitivos e uma culpa que nunca passa? A psicanálise revela um drama psÃquico profundo sobre ética, desejo e a voz interna que nunca se cala.

Imagine alguém que, antes de sair de casa, precisa verificar se a porta está trancada exatamente sete vezes. Ou que não consegue tomar uma decisão simples sem ficar horas pensando em todas as consequências possÃveis. Ou ainda que se sente culpado por pensamentos que nem sequer quer ter.
Bem-vindo ao universo da neurose obsessiva - uma estrutura psÃquica que revela alguns dos aspectos mais profundos e contraditórios da condição humana.
O Prisioneiro das Próprias Regras
Freud percebeu algo curioso: os obsessivos têm uma dificuldade particular em seguir a regra fundamental da psicanálise - "fale tudo o que vier à cabeça". Eles ficam presos entre duas opções igualmente angustiantes: calar-se completamente ou repetir-se infinitamente.
É como se estivessem sempre testemunhando algo impossÃvel de resolver. Tudo parece bloqueado, congelado numa dúvida eterna.
As Origens: A Fase Anal e o Controle
Nos seus primeiros estudos, Freud ligava a neurose obsessiva a uma "regressão à fase anal" - aquele perÃodo da infância em que a criança descobre o poder de controlar os próprios esfÃncteres. "Faço cocô quando EU quero, onde EU quero!"
Parece simples, mas é uma descoberta revolucionária para uma criança: ela pode controlar algo. Pode reter, pode soltar, pode decidir. Esse poder sobre o próprio corpo se torna modelo para tentar controlar tudo na vida.
O obsessivo adulto carrega essa marca: a ilusão de que pode (e deve) controlar pensamentos, sentimentos, consequências, o futuro, os outros.
O Mistério dos Tabus e Rituais
Em "Totem e Tabu" (1913), Freud fez uma conexão genial entre os rituais tribais e a neurose obsessiva. Observou como, nas sociedades primitivas, certas pessoas ou objetos se tornavam "tabu" - proibidos, perigosos, intocáveis.
O fascinante é que a proibição transfere seu poder para tudo que se relaciona com o objeto proibido. Se o guerreiro é tabu após a batalha, sua roupa vira tabu, quem toca sua roupa vira tabu, quem toca quem tocou sua roupa...
Reconhece o padrão? É exatamente assim que funciona a mente obsessiva: um pensamento "proibido" contamina tudo ao redor.
A Ambivalência: Querer e Não Querer
Os tabus mais poderosos são criados justamente para barrar aquilo que mais nos atrai. As regras mais rÃgidas sobre contato entre homens e mulheres, as evitações elaboradas entre genro e sogra - tudo isso aponta para desejos que são ao mesmo tempo irresistÃveis e proibidos.
O obsessivo vive nessa ambivalência constante: quer e não quer, deseja e proÃbe, aproxima e evita, tudo ao mesmo tempo.
A Onipotência do Pensamento: "Se Pensei, Pode Acontecer"
Uma das caracterÃsticas mais marcantes da neurose obsessiva é a onipotência de pensamento - a crença inconsciente de que nossos pensamentos podem alterar a realidade.
"Se eu pensar que minha mãe pode morrer, ela pode morrer de verdade." "Se eu não fizer este ritual, algo terrÃvel vai acontecer." "Se eu tive este pensamento ruim, sou uma pessoa má."
Daà nascem as compulsões como contra-feitiços - rituais para "desfazer" o poder mágico dos pensamentos proibidos.
O Homem dos Ratos: O Horror e o FascÃnio
O famoso caso do "Homem dos Ratos" (1909) revelou algo perturbador sobre a neurose obsessiva. O paciente ficara obcecado com um suplÃcio que ouvira: ratos eram introduzidos no ânus de prisioneiros.
A imagem o fascinava e horrorizava simultaneamente. Freud percebeu aà a força sádica dos juramentos obsessivos - aquela voz interna implacável que diz "tu deves...", "tu não podes...", "tu serás punido se...".
O Supereu: O Tirano Interno
Com o desenvolvimento da teoria psicanalÃtica, Freud ligou a neurose obsessiva ao funcionamento do supereu - aquela instância psÃquica que nos julga, critica e pune internamente.
"O supereu pode tornar-se hipermoral e, portanto, tão cruel quanto só o isso [os impulsos] pode ser" - Freud
Mas de onde vem essa crueldade voltada contra nós mesmos? Freud sugeriu uma inversão: o sadismo que dirigirÃamos aos outros se volta contra nós mesmos, numa espécie de masoquismo moral.
O Estranho que Nos Habita
Em "Mal-estar na Civilização" (1929), Freud questionou o mandamento cristão "ama ao próximo como a ti mesmo". Como isso seria possÃvel se existe um "estranho" (fremde) dentro de nós?
A maldade que tememos no outro é, na verdade, a maldade desse "próximo" que nos habita. O supereu obsessivo é mais cruel que qualquer pai ou mãe real - ele carrega algo mais profundo, uma voz interna que ecoa desde sempre: "tu deves...".
Lacan: Além da Culpa, a Questão do Desejo
Jacques Lacan revolucionou a compreensão da neurose obsessiva ao criticar tratamentos que visavam apenas "diminuir a culpa". Para ele, isso era insuficiente.
Lacan estudou por sete anos consecutivos um tratamento proposto por Maurice Bouvet, que prometia: a) buscar a frustração infantil; b) diminuir a agressividade; c) resolver a regressão.
O resultado? As obsessões continuavam, mas o paciente se sentia menos culpado. Lacan percebeu que isso era um alÃvio superficial.
A Verdadeira Questão: Não o "Ter", mas o "Ser"
Para Lacan, a neurose obsessiva não vem de uma frustração da demanda do "ter", mas de uma castração não realizada quanto ao "ser" - especificamente, quanto a ser aquilo que falta no desejo do Outro.
Em outras palavras: o obsessivo não aceita que é castrado, que é faltante, que não pode ser tudo para ninguém (especialmente para a mãe). Ele fica preso tentando ser o que imagina que o Outro deseja.
A Ética do Desejo: Nem Kant, Nem Sade
No Seminário VII, Lacan abordou uma questão fundamental: que ética serve para a psicanálise?
Ele examinou duas possibilidades extremas:
Kant: O imperativo categórico do dever moral - "age como se tua ação pudesse virar lei universal"
Sade: O direito ao gozo perverso - "o outro tem direito ao gozo, direito sobre meu corpo"
Lacan rejeitou ambas. Nem a moralidade rÃgida de Kant nem a libertinagem de Sade servem para a psicanálise.
A Lei do Desejo
A alternativa proposta por Lacan: a ética do desejo. Cada sujeito deve manter proximidade com seu próprio gozo, mas de forma que não reprove toda ação simples nem caia na libertinagem.
Citando São Paulo: "Só conheci o gozo pela lei... sem a lei, não há gozo".
A lei do desejo é aquela que dá sentido à castração - é aceitando nossa falta constitutiva que algo pode ser alcançado pela via do desejo.
O Destino do Supereu: Transformação, Não Aniquilamento
O que acontece com aquela voz interna cruel no final de uma análise? Ela simplesmente desaparece?
Não exatamente. O supereu tem uma função de sustentação que liga o desejo à angústia. A questão não é eliminá-lo, mas transformar sua função.
A Travessia do Fantasma
Durante a análise, o obsessivo precisa atravessar seu fantasma fundamental - aquela história inconsciente que organiza sua relação com o desejo e o gozo.
Nessa travessia, o supereu deixa de ser o "guerreiro do gozo impossÃvel" e pode se transformar numa voz que fala não de obrigações cruéis, mas da possibilidade de satisfação através do desejo.
Como diz Fernandez: "algo dele restará ao final de uma análise - resto que pode vigorar como causa do desejo, operando na dimensão do imperativo ético".
Reflexões Para Hoje
A neurose obsessiva nos ensina sobre:
1. O peso das regras internas: Quantas vezes obedecemos vozes internas mais cruéis que qualquer autoridade externa?
2. A ilusão de controle: Como tentamos controlar o incontrolável e sofremos por isso?
3. A ambivalência do desejo: Como lidamos com querer coisas que "não deverÃamos" querer?
4. A ética pessoal: Como encontrar uma ética que não seja nem moralismo rÃgido nem libertinagem?
5. A aceitação da falta: Como aceitar que somos incompletos, faltantes, castrados - e que isso é humano?
Considerações Finais
A neurose obsessiva revela um drama profundamente humano: a tensão entre dever e desejo, entre controle e abandono, entre ideal e real.
O obsessivo é, de certa forma, um filósofo moral torturado - alguém que leva as questões éticas ao extremo, que não consegue aceitar a ambiguidade da condição humana.
Sua cura não passa por eliminar a moral ou o desejo, mas por encontrar uma ética singular - aquela que permite viver com a incompletude sem tentar tampá-la com rituais, mas também sem cair no "vale tudo".
É aprender que podemos desejar sem nos destruir, que podemos aceitar nossa falta sem nos anular, que podemos ter uma ética que não seja uma prisão.
O obsessivo nos ensina, paradoxalmente, sobre a liberdade possÃvel dentro da estrutura - aquela que vem não de eliminar limites, mas de habitá-los de forma criativa.
A neurose obsessiva é um espelho da condição humana: todos temos algo de obsessivo, todos lidamos com a tensão entre dever e desejo. Compreendê-la é compreender algo fundamental sobre nós mesmos.

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